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“Um cu muito bonito, o da bicha”: notas de uma escritura queer em João Gilberto Noll

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A literatura brasileira contemporânea já aponta para uma escritura da diferença, ou seja, uma produção artística que transita por caminhos literários que provocam desestabilizações em leitores e leitoras, seja estética ou estilisticamente; seja de cunho político, social ou ideológico. A escritura queer propicia um desvio, uma quebra na expectativa clássica da narrativa, e surpreende com a sua capacidade de desterritorializar, desde a estética até o conteúdo. A literatura de João Gilberto Noll caminha por essas tessituras, fragmentando os espaços, apresentando personagens-flaneur e, sobretudo por pautar temáticas que criam tensão com a lógica heteronormativa, acerca do gênero, sexo e sexualidades, por meio da instabilidade e de uma narração demasiadamente estilhaçada. Nessa perspectiva, proponho aqui uma análise de personagens nollianas e da sua própria escritura literária, através do romance A fúria do corpo (1981). O cu, como uma potência subversiva, aparece na obra de Noll como uma estética da feiura, um locus de questionamento e resistência de uma sexualidade não heterossexual, rompendo assim com a compreensão clássica do corpo apenas reprodutivo e do cu como uma área exclusiva de excreção, não habitável e fora dos limites do desejo. Em A fúria do corpo, há uma potência narrativa e também estética que situa o corpo humano fora dos limites da aceitabilidade social: dois corpos vagabundos que transitam nas ruas do Rio de Janeiro, em meio a um contexto de ditadura militar, muita repressão, mas também muitos escapes, como linhas de fuga, e subversões. A observação dos escapes, das subversões à norma e dos contínuos processos de reterritorialização podem ser vistos por meio de inúmeras representações artísticas, literárias, culturais e identitárias. A pós-modernidade não só permite a transgressão da linguagem, dos corpos e das identidades, bem como estimula a ruptura com o “velho regime” literário, tendo em vista o atual contexto multifacetado da existência humana e da produção de subjetividades. Este contexto de flexibilidades existenciais proporciona a evidência de uma escritura literária desviante. Utilizo aqui a compreensão de “práticas de si”, de Foucault; o conceito de “escritura”, em Barthes; os principais conceitos em Deleuze e Guattari, como devir, fluxo, desejo e corpo sem órgãos, além dos conceitos de gênero/sexo e performatividade de Judith Butler e demais teóricas/os dos estudos queer.
Universidade Federal da Bahia
Title: “Um cu muito bonito, o da bicha”: notas de uma escritura queer em João Gilberto Noll
Description:
A literatura brasileira contemporânea já aponta para uma escritura da diferença, ou seja, uma produção artística que transita por caminhos literários que provocam desestabilizações em leitores e leitoras, seja estética ou estilisticamente; seja de cunho político, social ou ideológico.
A escritura queer propicia um desvio, uma quebra na expectativa clássica da narrativa, e surpreende com a sua capacidade de desterritorializar, desde a estética até o conteúdo.
A literatura de João Gilberto Noll caminha por essas tessituras, fragmentando os espaços, apresentando personagens-flaneur e, sobretudo por pautar temáticas que criam tensão com a lógica heteronormativa, acerca do gênero, sexo e sexualidades, por meio da instabilidade e de uma narração demasiadamente estilhaçada.
Nessa perspectiva, proponho aqui uma análise de personagens nollianas e da sua própria escritura literária, através do romance A fúria do corpo (1981).
O cu, como uma potência subversiva, aparece na obra de Noll como uma estética da feiura, um locus de questionamento e resistência de uma sexualidade não heterossexual, rompendo assim com a compreensão clássica do corpo apenas reprodutivo e do cu como uma área exclusiva de excreção, não habitável e fora dos limites do desejo.
Em A fúria do corpo, há uma potência narrativa e também estética que situa o corpo humano fora dos limites da aceitabilidade social: dois corpos vagabundos que transitam nas ruas do Rio de Janeiro, em meio a um contexto de ditadura militar, muita repressão, mas também muitos escapes, como linhas de fuga, e subversões.
A observação dos escapes, das subversões à norma e dos contínuos processos de reterritorialização podem ser vistos por meio de inúmeras representações artísticas, literárias, culturais e identitárias.
A pós-modernidade não só permite a transgressão da linguagem, dos corpos e das identidades, bem como estimula a ruptura com o “velho regime” literário, tendo em vista o atual contexto multifacetado da existência humana e da produção de subjetividades.
Este contexto de flexibilidades existenciais proporciona a evidência de uma escritura literária desviante.
Utilizo aqui a compreensão de “práticas de si”, de Foucault; o conceito de “escritura”, em Barthes; os principais conceitos em Deleuze e Guattari, como devir, fluxo, desejo e corpo sem órgãos, além dos conceitos de gênero/sexo e performatividade de Judith Butler e demais teóricas/os dos estudos queer.

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