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Casamento Tradicional

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Fatumata é o meu nome. Tenho 13 anos e nasci na Guiné-Bissau, zona de Quinara. Há 2 anos passei o primeiro ritual de entrada na idade adulta. Como todas nós, meninas da minha idade, em breve casar-me-ei com um homem escolhido para mim desde que abri os olhos para o mundo que me rodeia. Amo a minha terra, a minha gente e respeito toda a tradição que conheço. Por isso, ao ver aproximar a altura em que serei obrigada a casar com um homem mais velho do que eu 39 anos, que mal vejo, começo a por em causa tudo o que conheço. Sinto um aperto.Penso no meu futuro ao de um homem por quem nada sinto. É o momento de maior tristeza que conheço na minha vida. Noites e dias passo sem sono, sem comer, às vezes comendo uma vez por dia. A situação conduziu-me a refletir profundamente sobre a tradução balanta, a minha etnia, e a condenar tudo o que diz respeito ao casamento das meninas com idade menor e a proibição de opinião a estas quanto à escolha do marido. Mas, é uma prática enraizada, secular ou milenar, difícil de ser combatida e de ser abandonada pelo balanta. Então o maior problema que me circula pela memória seria o de encontrar um caminho que me pudesse livrar do compromisso assumido pelos meus pais e tios que, há sete anos, consomem, anualmente, sem o meu consentimento, o vinho de um homem que pretende casar comigo. Uma solução aparece-me à vista, conversar com a minha mãe que, apesar de tradicionalmente não ter nenhum poder de alterar a situação, mesmo que seja contra a sua vontade, poderá ajudar-me com alguns conselhos. Ao meu pai não fazia sentido. Além de ser um dos mentores, sabe-se que o homem balanta relaciona-se pouco com as filhas, em particular com as que ainda não se casaram. O homem balanta não decide quanto ao casamento das próprias filhas, sob pena de ser entendido como orgulhoso e as filhas a serem perseguidas em feitiçaria. São os irmãos dele os maiores decisores sobre o assunto. Numa manhã, aproveitando a ida do meu pai ao mato, eu e a mãe conversamos: Mãe, achas que devo casar com um homem daquela idade? Fatumata, sabes que a minha opinião quanto a essa prática é como a de um cachorro. A nossa tradição confere todos os poderes ao homem; neste caso é ao teu pai aos e irmãos dele que temos de obedecer. Qualquer opinião minha será mal acolhida e serei tomada como quem te instiga a rejeitar o homem que escolheram para ti. Podem em reação datar o casamento num curto tempo possível. Também uma opinião tua contrária a deles levarte- ia a uma forte tortura. Obrigada, mãe! Tenho que fugir deixando esta aldeia, Tchintchidari, onde nasci e vivi, para viver noutra terra de que ainda não sei nem o caminho, nem o nome. Pois, a essa situação não posso conformar-me. Não fujas, filha, casa-te! No inicio é sempre dor, mas tudo há-de passar. A minha mãe discorda da eventual fuga, entendendo que poderá ser fatal ao meu futuro. Pois, no balanta a recusa por parte da filha ao marido escolhido pelos pais é dada como uma autentica humilhação a esses. Esse fato conduz, normalmente, o recurso do pai ao seu Irã1, onde nu, fazendo alguns gestos, derrama a água, pedindo que a filha desobediente não possa ter filhos. Até porque, às vezes, o pai declara, perante familiares e outros, que a filha desobediente não serve de nada para ninguém e autoriza que qualquer familiar que queira e possa fazer dela algo em feitiçaria, que o faça. No entanto, passaram-se duas semanas para que, numa madrugada, o meu pai me chame a informar que será trazido, brevemente, o último vinho, depois do qual deveria, segundo costume, ir junto ao futuro marido, pelo menos dois meses, para ter amizade com ele e os seus familiares, regressando algum tempo antes da cerimônia de casamento. É nesta madrugada que começam as cenas que resultaram na minha tortura. O meu pai e eu não nos entendemos. Resmungando, fiz-lhe saber que não gostava nem de pisar a varanda do dito noivo, que fará casar com ele. E pai com o seu grito: _ Ah! És dona de ti para nos envergonhar perante o nosso amigo? Tu estás... E eu ainda: _ Não vou me casar com um homem que não conheço. Ainda velhíssimo! Então, descontente comigo, logo de manhã chamou os seus e os meus irmãos mais velhos que, como ele, acharam o meu comportamento um atrevimento. Imediatamente, os meus irmãos receberam a ordem para me amarar as mãos e os pés. A isso seguiram-se pancadarias e ameaças para, finalmente, ser abandonada ao sol durante muitas horas. A minha libertação só veio a acontecer poucos minutos depois de ouvir a voz da minha mãe, logo calada pelos gritos, dizendo: _ Perdoem-na. _ O acontecido custou-me cinco dias de permanência sobra a cama e a data do casamento marcada para dali a quarenta dias. Indo à fonte, numa tarde, à procura da água, ali veio encontrar-me a Binhambitida, a minha amiga que, há mais de três anos, vive em Bissau. Após cumprimentos, tudo o que seguidamente falamos parece ser motivado pelo meu estado físico. _ Fatumata! És tu!? O que é que se passa contigo? _ Nada. _ Nada! Não. O teu corpo mostra que algo está a se passar contigo. Conta-me! _ É o problema habitual com que todas nós nos deparamos nesta idade, o do casamento. _ Eu... não quero o homem, um velho, que escolheram para mim. A conversa foi longa e pormenorizada. Entretanto, é nesta amiga de sempre que encontro a possibilidade de me libertar da opressão. Sugeriu que fugisse com ela no dia do seu regresso, três dias depois, para Bissau. A sugestão dada coincidiu com a idéia que tinha há quase dois meses e que não se concretizou por falta de local e pessoa a que/m pudesse recorrer. Já que é assim, concentramo-nos logo a estudar a possibilidade de viajarmos sem que a amiga e sua família fossem responsabilizadas da minha fuga. Concluímos que devamos viajar sem sermos vistas juntos por qualquer pessoa da aldeia. Assim, combinamos que a Binhambitida partiria um dia antes para a casa do tio em Buba, capital da região, e cidade mais próxima, e eu um dia depois, para nos encontrarmos na paragem, às 11 horas, e seguirmos para Bissau. Ao ir para Buba, conforme o combinado, Binhambitida despediu-se de todos, inclusive dos meus pais, dizendo que voltaria nesse dia para Bissau. Eu, fingindo nada saber, é no quintal que fui passar toda a manhã, sem apontar os olhos na frente para ver a amiga e me despedir dela.. No dia da minha vez de partir, acordei cedinho para varrer a casa e encher o pote. Os meus pais, sem desconfiança, seguiram, às 8 horas, o caminho para o arrozal. Nessa hora aproveitei a saida. Com a minha pasta nas mãos, pus-me a correr, a caminho de Buba. Ali, na paragem, de longe, vi a Binhambitida e soltei a voz de alivio. _ Binhambitida, cheguei! Sem muita conversa, entramos rapidamente num condonga2 rumo a Bissau, onde agora tento retomar a vida normal, apesar da notícia de que o meu pai já sabe onde estou. Bissau, 31 de março de 2008.
Universidade Severino Sombra
Title: Casamento Tradicional
Description:
Fatumata é o meu nome.
Tenho 13 anos e nasci na Guiné-Bissau, zona de Quinara.
Há 2 anos passei o primeiro ritual de entrada na idade adulta.
Como todas nós, meninas da minha idade, em breve casar-me-ei com um homem escolhido para mim desde que abri os olhos para o mundo que me rodeia.
Amo a minha terra, a minha gente e respeito toda a tradição que conheço.
Por isso, ao ver aproximar a altura em que serei obrigada a casar com um homem mais velho do que eu 39 anos, que mal vejo, começo a por em causa tudo o que conheço.
Sinto um aperto.
Penso no meu futuro ao de um homem por quem nada sinto.
É o momento de maior tristeza que conheço na minha vida.
Noites e dias passo sem sono, sem comer, às vezes comendo uma vez por dia.
A situação conduziu-me a refletir profundamente sobre a tradução balanta, a minha etnia, e a condenar tudo o que diz respeito ao casamento das meninas com idade menor e a proibição de opinião a estas quanto à escolha do marido.
Mas, é uma prática enraizada, secular ou milenar, difícil de ser combatida e de ser abandonada pelo balanta.
Então o maior problema que me circula pela memória seria o de encontrar um caminho que me pudesse livrar do compromisso assumido pelos meus pais e tios que, há sete anos, consomem, anualmente, sem o meu consentimento, o vinho de um homem que pretende casar comigo.
Uma solução aparece-me à vista, conversar com a minha mãe que, apesar de tradicionalmente não ter nenhum poder de alterar a situação, mesmo que seja contra a sua vontade, poderá ajudar-me com alguns conselhos.
Ao meu pai não fazia sentido.
Além de ser um dos mentores, sabe-se que o homem balanta relaciona-se pouco com as filhas, em particular com as que ainda não se casaram.
O homem balanta não decide quanto ao casamento das próprias filhas, sob pena de ser entendido como orgulhoso e as filhas a serem perseguidas em feitiçaria.
São os irmãos dele os maiores decisores sobre o assunto.
Numa manhã, aproveitando a ida do meu pai ao mato, eu e a mãe conversamos: Mãe, achas que devo casar com um homem daquela idade? Fatumata, sabes que a minha opinião quanto a essa prática é como a de um cachorro.
A nossa tradição confere todos os poderes ao homem; neste caso é ao teu pai aos e irmãos dele que temos de obedecer.
Qualquer opinião minha será mal acolhida e serei tomada como quem te instiga a rejeitar o homem que escolheram para ti.
Podem em reação datar o casamento num curto tempo possível.
Também uma opinião tua contrária a deles levarte- ia a uma forte tortura.
Obrigada, mãe! Tenho que fugir deixando esta aldeia, Tchintchidari, onde nasci e vivi, para viver noutra terra de que ainda não sei nem o caminho, nem o nome.
Pois, a essa situação não posso conformar-me.
Não fujas, filha, casa-te! No inicio é sempre dor, mas tudo há-de passar.
A minha mãe discorda da eventual fuga, entendendo que poderá ser fatal ao meu futuro.
Pois, no balanta a recusa por parte da filha ao marido escolhido pelos pais é dada como uma autentica humilhação a esses.
Esse fato conduz, normalmente, o recurso do pai ao seu Irã1, onde nu, fazendo alguns gestos, derrama a água, pedindo que a filha desobediente não possa ter filhos.
Até porque, às vezes, o pai declara, perante familiares e outros, que a filha desobediente não serve de nada para ninguém e autoriza que qualquer familiar que queira e possa fazer dela algo em feitiçaria, que o faça.
No entanto, passaram-se duas semanas para que, numa madrugada, o meu pai me chame a informar que será trazido, brevemente, o último vinho, depois do qual deveria, segundo costume, ir junto ao futuro marido, pelo menos dois meses, para ter amizade com ele e os seus familiares, regressando algum tempo antes da cerimônia de casamento.
É nesta madrugada que começam as cenas que resultaram na minha tortura.
O meu pai e eu não nos entendemos.
Resmungando, fiz-lhe saber que não gostava nem de pisar a varanda do dito noivo, que fará casar com ele.
E pai com o seu grito: _ Ah! És dona de ti para nos envergonhar perante o nosso amigo? Tu estás.
E eu ainda: _ Não vou me casar com um homem que não conheço.
Ainda velhíssimo! Então, descontente comigo, logo de manhã chamou os seus e os meus irmãos mais velhos que, como ele, acharam o meu comportamento um atrevimento.
Imediatamente, os meus irmãos receberam a ordem para me amarar as mãos e os pés.
A isso seguiram-se pancadarias e ameaças para, finalmente, ser abandonada ao sol durante muitas horas.
A minha libertação só veio a acontecer poucos minutos depois de ouvir a voz da minha mãe, logo calada pelos gritos, dizendo: _ Perdoem-na.
_ O acontecido custou-me cinco dias de permanência sobra a cama e a data do casamento marcada para dali a quarenta dias.
Indo à fonte, numa tarde, à procura da água, ali veio encontrar-me a Binhambitida, a minha amiga que, há mais de três anos, vive em Bissau.
Após cumprimentos, tudo o que seguidamente falamos parece ser motivado pelo meu estado físico.
_ Fatumata! És tu!? O que é que se passa contigo? _ Nada.
_ Nada! Não.
O teu corpo mostra que algo está a se passar contigo.
Conta-me! _ É o problema habitual com que todas nós nos deparamos nesta idade, o do casamento.
_ Eu.
não quero o homem, um velho, que escolheram para mim.
A conversa foi longa e pormenorizada.
Entretanto, é nesta amiga de sempre que encontro a possibilidade de me libertar da opressão.
Sugeriu que fugisse com ela no dia do seu regresso, três dias depois, para Bissau.
A sugestão dada coincidiu com a idéia que tinha há quase dois meses e que não se concretizou por falta de local e pessoa a que/m pudesse recorrer.
Já que é assim, concentramo-nos logo a estudar a possibilidade de viajarmos sem que a amiga e sua família fossem responsabilizadas da minha fuga.
Concluímos que devamos viajar sem sermos vistas juntos por qualquer pessoa da aldeia.
Assim, combinamos que a Binhambitida partiria um dia antes para a casa do tio em Buba, capital da região, e cidade mais próxima, e eu um dia depois, para nos encontrarmos na paragem, às 11 horas, e seguirmos para Bissau.
Ao ir para Buba, conforme o combinado, Binhambitida despediu-se de todos, inclusive dos meus pais, dizendo que voltaria nesse dia para Bissau.
Eu, fingindo nada saber, é no quintal que fui passar toda a manhã, sem apontar os olhos na frente para ver a amiga e me despedir dela.
No dia da minha vez de partir, acordei cedinho para varrer a casa e encher o pote.
Os meus pais, sem desconfiança, seguiram, às 8 horas, o caminho para o arrozal.
Nessa hora aproveitei a saida.
Com a minha pasta nas mãos, pus-me a correr, a caminho de Buba.
Ali, na paragem, de longe, vi a Binhambitida e soltei a voz de alivio.
_ Binhambitida, cheguei! Sem muita conversa, entramos rapidamente num condonga2 rumo a Bissau, onde agora tento retomar a vida normal, apesar da notícia de que o meu pai já sabe onde estou.
Bissau, 31 de março de 2008.

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