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Dádiva em cena: uma opereta sobre joias de família

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Joia de família não é sinônimo de joia. Essa coisa – que pode ou não ser feita com metais nobres e gemas – apenas recebe a alcunha “de família” em processos sociais, ou seja, ao se enredar em ancestrais e ser repassada como herança. Acompanhada de narrativas, converte-se em elos de experiências e trajetórias entre vivos, mortos e aqueles que nem nasceram. Crônicas e performances acompanham seus movimentos e nos permitem acessar práticas e emoções recebidas e legadas entre gerações.A alegoria que Fabricio Barreto (fotos) e Aline Lopes Rochedo (texto) compõem na narrativa imagética aqui apresentada emerge de uma etnografia sobre transmissão de joias de família, pesquisa que resultará na tese de Rochedo em 2020. Em termos teóricos, a autora parte de Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, publicado em 1925 e que ainda hoje incita reflexões. Rochedo tenciona identificar práticas e dinâmicas envolvidas em repasses de joias de família, coisas às quais se atribuem valores para além do econômico. Intenta, ainda, compreender o que esses processos revelam sobre a vida coletiva, observando como sujeitos vivenciam histórias e instituições nas quais as relações existem, contemplando marcadores simbólicos de gênero e classe.Este ensaio é uma construção parcial de realidades expressas pela cenógrafa Andrea Mazza Terra, moradora de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Embora reúna na tese mais de 40 casos de repasses geracionais de joias de família, Rochedo destaca as prosas desta interlocutora pela riqueza de sua fala para narrar a família. A pesquisa se iniciou com entrevistas, conversas informais e observação realizadas na casa de Andrea, entre fevereiro e abril de 2018, quando ela discorreu sobre o bracelete da baronesa, joia de família que, inicialmente, fora presente de casamento do barão de Santa Tecla à futura esposa, Amélia, avó de sua bisavó.Rochedo reencontrou Andrea em maio de 2018, desta vez com Barreto, para fotografá-la interagindo com sua joia de família, e a experiência jogou novas luzes sobre possibilidades de dádiva. Mas o desfecho desse roteiro improvisado e imprevisível só foi possível graças a Raphael Scholl, amigo que apresentou Andrea à Rochedo e cuidou do figurino para as fotos. Barreto e Rochedo construíram a narrativa de imagens numa tentativa de misturar vozes e percepções na composição de uma experiência cênica protagonizada por Andrea com ajuda de Raphael e do estilista Maurício Guidotti.As fotos foram feitas em maio de 2018, no sobrado cansado e cravejado de vitrais Tiffany onde a interlocutora nasceu e reside. Neste palco tão familiar herdado dos avós maternos, Andrea compôs sua opereta imagética sobre o bracelete de ouro e diamantes forjado em Paris no século XIX. O adorno que testemunhou o esplendor e a decadência da economia do charque pelotense nos anos 1920 conecta Andrea a cinco gerações de mulheres, da baronesa de Santa Tecla até a avó, Nóris, de quem recebeu a dádiva. Também a mantém algemada ao passado da família. À crônica atualizada e crítica às crueldades cometidas contra cativos pelos barões do charque soma-se o relicário novecentista que lhe foi transmitido por Nóris em vida. A interlocutora vela na caixinha de ouro baixo e alta estima a matriarca falecida no início dos anos 2000: “Se sou o que sou, se sou como sou, é tudo da minha vó. Fui criada por ela, e a consciência foi ela quem me deu. [...] Porque a história da escravidão foi negada sempre, e inventaram uma outra história, a de uma escravidão light”.
Title: Dádiva em cena: uma opereta sobre joias de família
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Joia de família não é sinônimo de joia.
Essa coisa – que pode ou não ser feita com metais nobres e gemas – apenas recebe a alcunha “de família” em processos sociais, ou seja, ao se enredar em ancestrais e ser repassada como herança.
Acompanhada de narrativas, converte-se em elos de experiências e trajetórias entre vivos, mortos e aqueles que nem nasceram.
Crônicas e performances acompanham seus movimentos e nos permitem acessar práticas e emoções recebidas e legadas entre gerações.
A alegoria que Fabricio Barreto (fotos) e Aline Lopes Rochedo (texto) compõem na narrativa imagética aqui apresentada emerge de uma etnografia sobre transmissão de joias de família, pesquisa que resultará na tese de Rochedo em 2020.
Em termos teóricos, a autora parte de Ensaio sobre a dádiva, de Marcel Mauss, publicado em 1925 e que ainda hoje incita reflexões.
Rochedo tenciona identificar práticas e dinâmicas envolvidas em repasses de joias de família, coisas às quais se atribuem valores para além do econômico.
Intenta, ainda, compreender o que esses processos revelam sobre a vida coletiva, observando como sujeitos vivenciam histórias e instituições nas quais as relações existem, contemplando marcadores simbólicos de gênero e classe.
Este ensaio é uma construção parcial de realidades expressas pela cenógrafa Andrea Mazza Terra, moradora de Pelotas, no Rio Grande do Sul.
Embora reúna na tese mais de 40 casos de repasses geracionais de joias de família, Rochedo destaca as prosas desta interlocutora pela riqueza de sua fala para narrar a família.
A pesquisa se iniciou com entrevistas, conversas informais e observação realizadas na casa de Andrea, entre fevereiro e abril de 2018, quando ela discorreu sobre o bracelete da baronesa, joia de família que, inicialmente, fora presente de casamento do barão de Santa Tecla à futura esposa, Amélia, avó de sua bisavó.
Rochedo reencontrou Andrea em maio de 2018, desta vez com Barreto, para fotografá-la interagindo com sua joia de família, e a experiência jogou novas luzes sobre possibilidades de dádiva.
Mas o desfecho desse roteiro improvisado e imprevisível só foi possível graças a Raphael Scholl, amigo que apresentou Andrea à Rochedo e cuidou do figurino para as fotos.
Barreto e Rochedo construíram a narrativa de imagens numa tentativa de misturar vozes e percepções na composição de uma experiência cênica protagonizada por Andrea com ajuda de Raphael e do estilista Maurício Guidotti.
As fotos foram feitas em maio de 2018, no sobrado cansado e cravejado de vitrais Tiffany onde a interlocutora nasceu e reside.
Neste palco tão familiar herdado dos avós maternos, Andrea compôs sua opereta imagética sobre o bracelete de ouro e diamantes forjado em Paris no século XIX.
O adorno que testemunhou o esplendor e a decadência da economia do charque pelotense nos anos 1920 conecta Andrea a cinco gerações de mulheres, da baronesa de Santa Tecla até a avó, Nóris, de quem recebeu a dádiva.
Também a mantém algemada ao passado da família.
À crônica atualizada e crítica às crueldades cometidas contra cativos pelos barões do charque soma-se o relicário novecentista que lhe foi transmitido por Nóris em vida.
A interlocutora vela na caixinha de ouro baixo e alta estima a matriarca falecida no início dos anos 2000: “Se sou o que sou, se sou como sou, é tudo da minha vó.
Fui criada por ela, e a consciência foi ela quem me deu.
[.
] Porque a história da escravidão foi negada sempre, e inventaram uma outra história, a de uma escravidão light”.

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