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Apresentação: Estudos de Filologia, Etimologia e Linguística histórica
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O volume 22(especial) da revista Filologia e Linguística Portuguesa, dedicado à Filologia, à Etimologia e à Linguística Histórica da língua portuguesa, aborda temas de relevância histórica, sociológica e linguística, que se configuram como importantes tanto para a reconstrução de sincronias pretéritas, quanto para a comparação interlinguística. Apesar de a necessidade de retomada dos estudos diacrônicos e históricos ser tema amplamente recorrente e, de certo modo, ser algo unanimemente desejado, a leitura deste volume mostrará que há muito ainda por se conhecer quando o assunto é a documentação em língua portuguesa. A cada investigação apresentada observa-se a urgência de renovação de quadros teóricos e de metodologias, dando-nos a entender que se trata de áreas em efervescência, que prometem muita investigação e requerem ainda muito investimento de recursos e de esforços. Dividiu-se este volume em três blocos de artigos, cujos conteúdos, embora frequentemente permeados um pelo outro, assumem o foco das perspectivas teóricas adotadas pelos seus autores e por suas autoras.
O primeiro bloco aborda a Filologia no seu sentido mais amplo e inicia pelo artigo Fragmenta latina operis Isaaci Ninivitae, de César Nardelli Cambraia, no qual são apresentados, por meio de critérios de edição paleográfica, nove testemunhos fragmentários inéditos da tradução latina da obra de Isaac de Nínive, localizados em Praga, Olomouc, Paris, Uppsala, Basileia e Colônia. Esse estudo proporcionará ao leitor uma visão mais detalhada das versões conhecidas, permitindo a identificação de variantes, erros conjuntivos e separativos.
O artigo Entre a Filologia e a Lexicografia Histórica: notas sobre a elaboração de uma edição das cantigas satíricas do Cancioneiro da Biblioteca Nacional para o estudo do léxico, de Lisana Rodrigues Trindade Sampaio, descreve a exploração de acervos digitais, que hoje nos proporcionam dados linguísticos não investigados nessas obras e apresenta-nos o processo de elaboração de uma edição diplomática de cantigas satíricas com vistas à confecção de um vocabulário das formas verbais, finitas e infinitivas, a partir de preceitos da Lexicografia Histórica.
Em Você confia nas edições que lê?, Carlos Eduardo Mendes de Moraes alerta-nos sobre o tratamento de fontes na preparação de um corpus de textos impressos ou manuscritos, problema com o qual o filólogo está sempre às voltas e que transcende o mero conhecimento da língua, pois em diversas versões de um texto em sua tradição impressa existem processos complexos de edição, publicação e divulgação e isso se situa para além do estabelecimento de critérios de qualificação do suporte ou da preferência por um edição, versão ou manuscrito específicos.
Ceila Maria Ferreira, no quarto artigo, Com a voz enrouquecida ou considerações sobre a presença de Camões no último capítulo de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, apresenta-nos a atualidade de Os Lusíadas, versando sobre a presença da obra camoniana na obra de Eça de Queirós, em que há um relato da Comuna de Paris. O artigo mostra o papel da Crítica Textual para a preservação e divulgação do patrimônio cultural.
Em A Filologia e o estudo de Requerimentos do Arquivo Histórico Ultramarino, de Eliana Correia Brandão Gonçalves, considera-se a organização de edições de Requerimentos históricos do Conselho Ultramarino e detalha-se a análise de um requerimento, do escravizado Francisco da Cruz, ao príncipe regente D. João, no qual se solicita proteção régia contra as injustiças praticadas por seu senhor Antônio da Cruz Veloso. Conforme a autora mostra, a Filologia age de modo transformador sobre os tempos de produção, de recepção e de análise do texto, bem como no reconhecimento de temas voltados à política.
Do mesmo modo, Marcelo Módolo e Maria de Fátima Nunes Madeira, no artigo intitulado Caminhos de um manuscrito setecentista: da Vila Real do Sabará à contemporaneidade, ao analisarem uma cópia da “Carta Régia ao Juiz e officiaes da Camara para a contribuiçaõ do subsidio voluntario, de 1755”, também discorrem sobre o potencial de revelação de marcas políticas no percurso de um manuscrito, desde a sua produção até a contemporaneidade. Segundo os autores, uma análise codicológica atesta preocupações com a longevidade do manuscrito e com a segurança de sua circulação: colecionadores, arquivistas, filólogos, entre outros pesquisadores seriam coautores na transmissão de documentos a gerações futuras.
Concluindo a primeira seção, voltada à Filologia, Norma Suely da Silva Pereira, no artigo Fontes coloniais e escravidão: relações de trabalho e práticas culturais na América portuguesa, corrobora a importância do conhecimento do passado para a compreensão da realidade presente, tendo como exemplo o reflexo da diáspora africana, na Bahia colonial. Por meio de um estudo transdisciplinar entre Paleografia, Diplomática, Sociologia dos textos, História cultural e Onomástica, analisa-se o intenso tráfico negreiro transatlântico rumo principalmente a portos brasileiros.
A relevância de questões filológicas, tais como as abreviaturas em manuscritos, também surge no primeiro artigo da segunda seção, voltada à Linguística Histórica, a saber, Revisitando a marca de plural na concordância de número: novos dados do português brasileiro e do francoprovençal antigos, de Maria Antonieta A. M. Cohen e Simone Fonseca Gomes, no qual se apresentam contrastivamente dados do português brasileiro e do francoprovençal, com a finalidade de compreender fenômenos de concordância de número no sintagma nominal português numa matriz românica.
Renata Ferreira Costa, José Douglas Felix de Sá e Luiza Daviane Santos Barbosa (UFS) no artigo Análise pragmático-discursiva de cartas trocadas entre Epifânio Dória e José Calasans fazem um estudo sobre a natureza da comunicação epistolar de dois representativos intelectuais sergipanos, com vistas a uma análise textual, em nível pragmático-discursivo, a saber, mediante a análise das rotinas verbais de abertura, pré-fecho e fecho das cartas. Tal análise leva ainda em consideração a produção e a circulação dos textos epistolares e o seu papel na história e na sociedade.
Concentrado na investigação de Linguística Histórica, mas também tentando resolver um problema etimológico, Alice Pereira Santos, em Origem e desenvolvimento dos prefixos de- e des-, parte do desenvolvimento semântico do prefixo de- para, em seguida, discutir e arquitetar uma nova proposta etimológica para o formante des-, apontando, por meio de dados num estudo comparativo e dialetológico, sua interseção com outros elementos formativos de origem latina.
Aléxia Teles Duchowny e Caroline de Oliveira Silva analisam no artigo O item ‘trouxa’ no português usado no Twitter ambos os sentidos do vocábulo em análise, ou seja, tanto o sentido etimológico, quanto o inovador, bem como as razões pelas quais teria ocorrido o processo de pejoratização do item lexical. Tentando flagrar flutuações semânticas na oralidade, as autoras também investigam ocorrências do item numa rede social, o Twitter, em que a língua escrita apresenta muitas características da oralidade.
Fechando o volume, Bruno Maroneze, no artigo Reavaliando a etimologia de abacaxi a partir de novos dados histórico-filológicos, reavalia a hipótese etimológica consensual de que a unidade lexical abacaxi se origina do tupi (yvá “fruta” e katĩ “que recende”, “que exala cheiro”) a partir de descrições etimológicas, transformações fonético-fonológicas e dados histórico-filológicos, mostrando incoerências, para, ao fim e ao cabo, concluir que tal hipótese deve ser tratada como controversa e que há necessidade de novas propostas etimológicas, sobretudo para a denominação de um grupo indígena homônimo.
Desejamos a todas e todos uma excelente e proveitosa leitura.
Mário Eduardo ViaroPhablo Roberto Marchis FachinVanessa Martins do Monte
Universidade de São Paulo
Primavera de 2020
Universidade de São Paulo. Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais
Title: Apresentação: Estudos de Filologia, Etimologia e Linguística histórica
Description:
O volume 22(especial) da revista Filologia e Linguística Portuguesa, dedicado à Filologia, à Etimologia e à Linguística Histórica da língua portuguesa, aborda temas de relevância histórica, sociológica e linguística, que se configuram como importantes tanto para a reconstrução de sincronias pretéritas, quanto para a comparação interlinguística.
Apesar de a necessidade de retomada dos estudos diacrônicos e históricos ser tema amplamente recorrente e, de certo modo, ser algo unanimemente desejado, a leitura deste volume mostrará que há muito ainda por se conhecer quando o assunto é a documentação em língua portuguesa.
A cada investigação apresentada observa-se a urgência de renovação de quadros teóricos e de metodologias, dando-nos a entender que se trata de áreas em efervescência, que prometem muita investigação e requerem ainda muito investimento de recursos e de esforços.
Dividiu-se este volume em três blocos de artigos, cujos conteúdos, embora frequentemente permeados um pelo outro, assumem o foco das perspectivas teóricas adotadas pelos seus autores e por suas autoras.
O primeiro bloco aborda a Filologia no seu sentido mais amplo e inicia pelo artigo Fragmenta latina operis Isaaci Ninivitae, de César Nardelli Cambraia, no qual são apresentados, por meio de critérios de edição paleográfica, nove testemunhos fragmentários inéditos da tradução latina da obra de Isaac de Nínive, localizados em Praga, Olomouc, Paris, Uppsala, Basileia e Colônia.
Esse estudo proporcionará ao leitor uma visão mais detalhada das versões conhecidas, permitindo a identificação de variantes, erros conjuntivos e separativos.
O artigo Entre a Filologia e a Lexicografia Histórica: notas sobre a elaboração de uma edição das cantigas satíricas do Cancioneiro da Biblioteca Nacional para o estudo do léxico, de Lisana Rodrigues Trindade Sampaio, descreve a exploração de acervos digitais, que hoje nos proporcionam dados linguísticos não investigados nessas obras e apresenta-nos o processo de elaboração de uma edição diplomática de cantigas satíricas com vistas à confecção de um vocabulário das formas verbais, finitas e infinitivas, a partir de preceitos da Lexicografia Histórica.
Em Você confia nas edições que lê?, Carlos Eduardo Mendes de Moraes alerta-nos sobre o tratamento de fontes na preparação de um corpus de textos impressos ou manuscritos, problema com o qual o filólogo está sempre às voltas e que transcende o mero conhecimento da língua, pois em diversas versões de um texto em sua tradição impressa existem processos complexos de edição, publicação e divulgação e isso se situa para além do estabelecimento de critérios de qualificação do suporte ou da preferência por um edição, versão ou manuscrito específicos.
Ceila Maria Ferreira, no quarto artigo, Com a voz enrouquecida ou considerações sobre a presença de Camões no último capítulo de O crime do padre Amaro, de Eça de Queirós, apresenta-nos a atualidade de Os Lusíadas, versando sobre a presença da obra camoniana na obra de Eça de Queirós, em que há um relato da Comuna de Paris.
O artigo mostra o papel da Crítica Textual para a preservação e divulgação do patrimônio cultural.
Em A Filologia e o estudo de Requerimentos do Arquivo Histórico Ultramarino, de Eliana Correia Brandão Gonçalves, considera-se a organização de edições de Requerimentos históricos do Conselho Ultramarino e detalha-se a análise de um requerimento, do escravizado Francisco da Cruz, ao príncipe regente D.
João, no qual se solicita proteção régia contra as injustiças praticadas por seu senhor Antônio da Cruz Veloso.
Conforme a autora mostra, a Filologia age de modo transformador sobre os tempos de produção, de recepção e de análise do texto, bem como no reconhecimento de temas voltados à política.
Do mesmo modo, Marcelo Módolo e Maria de Fátima Nunes Madeira, no artigo intitulado Caminhos de um manuscrito setecentista: da Vila Real do Sabará à contemporaneidade, ao analisarem uma cópia da “Carta Régia ao Juiz e officiaes da Camara para a contribuiçaõ do subsidio voluntario, de 1755”, também discorrem sobre o potencial de revelação de marcas políticas no percurso de um manuscrito, desde a sua produção até a contemporaneidade.
Segundo os autores, uma análise codicológica atesta preocupações com a longevidade do manuscrito e com a segurança de sua circulação: colecionadores, arquivistas, filólogos, entre outros pesquisadores seriam coautores na transmissão de documentos a gerações futuras.
Concluindo a primeira seção, voltada à Filologia, Norma Suely da Silva Pereira, no artigo Fontes coloniais e escravidão: relações de trabalho e práticas culturais na América portuguesa, corrobora a importância do conhecimento do passado para a compreensão da realidade presente, tendo como exemplo o reflexo da diáspora africana, na Bahia colonial.
Por meio de um estudo transdisciplinar entre Paleografia, Diplomática, Sociologia dos textos, História cultural e Onomástica, analisa-se o intenso tráfico negreiro transatlântico rumo principalmente a portos brasileiros.
A relevância de questões filológicas, tais como as abreviaturas em manuscritos, também surge no primeiro artigo da segunda seção, voltada à Linguística Histórica, a saber, Revisitando a marca de plural na concordância de número: novos dados do português brasileiro e do francoprovençal antigos, de Maria Antonieta A.
M.
Cohen e Simone Fonseca Gomes, no qual se apresentam contrastivamente dados do português brasileiro e do francoprovençal, com a finalidade de compreender fenômenos de concordância de número no sintagma nominal português numa matriz românica.
Renata Ferreira Costa, José Douglas Felix de Sá e Luiza Daviane Santos Barbosa (UFS) no artigo Análise pragmático-discursiva de cartas trocadas entre Epifânio Dória e José Calasans fazem um estudo sobre a natureza da comunicação epistolar de dois representativos intelectuais sergipanos, com vistas a uma análise textual, em nível pragmático-discursivo, a saber, mediante a análise das rotinas verbais de abertura, pré-fecho e fecho das cartas.
Tal análise leva ainda em consideração a produção e a circulação dos textos epistolares e o seu papel na história e na sociedade.
Concentrado na investigação de Linguística Histórica, mas também tentando resolver um problema etimológico, Alice Pereira Santos, em Origem e desenvolvimento dos prefixos de- e des-, parte do desenvolvimento semântico do prefixo de- para, em seguida, discutir e arquitetar uma nova proposta etimológica para o formante des-, apontando, por meio de dados num estudo comparativo e dialetológico, sua interseção com outros elementos formativos de origem latina.
Aléxia Teles Duchowny e Caroline de Oliveira Silva analisam no artigo O item ‘trouxa’ no português usado no Twitter ambos os sentidos do vocábulo em análise, ou seja, tanto o sentido etimológico, quanto o inovador, bem como as razões pelas quais teria ocorrido o processo de pejoratização do item lexical.
Tentando flagrar flutuações semânticas na oralidade, as autoras também investigam ocorrências do item numa rede social, o Twitter, em que a língua escrita apresenta muitas características da oralidade.
Fechando o volume, Bruno Maroneze, no artigo Reavaliando a etimologia de abacaxi a partir de novos dados histórico-filológicos, reavalia a hipótese etimológica consensual de que a unidade lexical abacaxi se origina do tupi (yvá “fruta” e katĩ “que recende”, “que exala cheiro”) a partir de descrições etimológicas, transformações fonético-fonológicas e dados histórico-filológicos, mostrando incoerências, para, ao fim e ao cabo, concluir que tal hipótese deve ser tratada como controversa e que há necessidade de novas propostas etimológicas, sobretudo para a denominação de um grupo indígena homônimo.
Desejamos a todas e todos uma excelente e proveitosa leitura.
Mário Eduardo ViaroPhablo Roberto Marchis FachinVanessa Martins do Monte
Universidade de São Paulo
Primavera de 2020.
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