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Eloísa Cartonera: corpo, caixas, lixo e livros
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Neste artigo, a partir da escrita de um diário de campo, analisamos os modos pelos quais o fazer da primeira editora cartonera do mundo, Eloísa Cartonera, localizada em Buenos Aires, se configura em um modelo muito parecido ao do mutirão: ainda que seja um modo de produção que admita hierarquias e especializações, estas se produzem no próprio momento produtivo. Entretanto, se a produção cartonera é realizada nos moldes de um mutirão, deste modelo ela se difere já que visa um produto final tomado como mercadoria. Com relação à posse dos meios de produção, esclarecemos que estes são propriedade dos próprios componentes da cooperativa, de modo que não existe reprodução do esquema patrão/empregado; como consequência, tampouco existe a mais-valia da qual o patrão se beneficia. Pelo o que vivenciamos em Eloísa, existem fortes laços afetivos entre as pessoas da oficina e os catadores de papelão, o que se nota pelos presentes que circulam de um lado a outro, o que se nota pela alegria com que chegam no ateliê, o que se nota pelo fato de que passam por aí inclusive quando não têm papelão para vender. Sobre a venda do produto final resultante do mutirão realizado, podemos perceber que existe um esforço em ressignificar o que seria uma pequena transação de compra e venda do livro, focalizando o contato e estabelecendo um vínculo entre quem o faz e quem o recebe. Este processo constituiria aquilo que seria “o mais interessante do projeto”, nas palavras de um de seus próprios fundadores, Washignton Cucurto. De acordo com nossa vivência, avaliamos que um livro com capa de papelão tal como proposto por Eloísa não só é um livro feito à mão, mas um objeto cultural que costuma ser acompanhado de seus produtores até que o corpo do leitor seja encontrado. Somos, ainda, interpelados a pensar que existe um investimento emocional na confecção de livros cartoneros, que os transformariam em livros especiais no interior da soma dos livros. De fato, gostaríamos de resgatar a constatação de que no livro cartonero se opera um certo apagamento da individualidade da obra e do autor que culmina em um efeito de indeterminação pelo qual acabam prevalecendo os sentidos do “livro cartonero” sobre os sentidos de “obra X, do autor Y”. Se por um lado este investimento emocional transforma tais livros em especiais, por outro, entendemos que este investimento acaba por trazer um ganho subjetivo para o artista/artesão cartonero: o da sublimação. Sendo esta sublimação realizada de modo a deixar pistas de que o livro era/é lixo, acaba por desenhar o caminho para que outros possam se embrenhar pelo mesmo corte. Em nossa interpretação, concluímos que o escancaramento da relação lixo/livro (explicitando em termos concretos a sublimação, ao passo que deixa rastros deste processo) é, em parte, responsável por fornecer o combustível para o círculo virtuoso cartonero.
Title: Eloísa Cartonera: corpo, caixas, lixo e livros
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Neste artigo, a partir da escrita de um diário de campo, analisamos os modos pelos quais o fazer da primeira editora cartonera do mundo, Eloísa Cartonera, localizada em Buenos Aires, se configura em um modelo muito parecido ao do mutirão: ainda que seja um modo de produção que admita hierarquias e especializações, estas se produzem no próprio momento produtivo.
Entretanto, se a produção cartonera é realizada nos moldes de um mutirão, deste modelo ela se difere já que visa um produto final tomado como mercadoria.
Com relação à posse dos meios de produção, esclarecemos que estes são propriedade dos próprios componentes da cooperativa, de modo que não existe reprodução do esquema patrão/empregado; como consequência, tampouco existe a mais-valia da qual o patrão se beneficia.
Pelo o que vivenciamos em Eloísa, existem fortes laços afetivos entre as pessoas da oficina e os catadores de papelão, o que se nota pelos presentes que circulam de um lado a outro, o que se nota pela alegria com que chegam no ateliê, o que se nota pelo fato de que passam por aí inclusive quando não têm papelão para vender.
Sobre a venda do produto final resultante do mutirão realizado, podemos perceber que existe um esforço em ressignificar o que seria uma pequena transação de compra e venda do livro, focalizando o contato e estabelecendo um vínculo entre quem o faz e quem o recebe.
Este processo constituiria aquilo que seria “o mais interessante do projeto”, nas palavras de um de seus próprios fundadores, Washignton Cucurto.
De acordo com nossa vivência, avaliamos que um livro com capa de papelão tal como proposto por Eloísa não só é um livro feito à mão, mas um objeto cultural que costuma ser acompanhado de seus produtores até que o corpo do leitor seja encontrado.
Somos, ainda, interpelados a pensar que existe um investimento emocional na confecção de livros cartoneros, que os transformariam em livros especiais no interior da soma dos livros.
De fato, gostaríamos de resgatar a constatação de que no livro cartonero se opera um certo apagamento da individualidade da obra e do autor que culmina em um efeito de indeterminação pelo qual acabam prevalecendo os sentidos do “livro cartonero” sobre os sentidos de “obra X, do autor Y”.
Se por um lado este investimento emocional transforma tais livros em especiais, por outro, entendemos que este investimento acaba por trazer um ganho subjetivo para o artista/artesão cartonero: o da sublimação.
Sendo esta sublimação realizada de modo a deixar pistas de que o livro era/é lixo, acaba por desenhar o caminho para que outros possam se embrenhar pelo mesmo corte.
Em nossa interpretação, concluímos que o escancaramento da relação lixo/livro (explicitando em termos concretos a sublimação, ao passo que deixa rastros deste processo) é, em parte, responsável por fornecer o combustível para o círculo virtuoso cartonero.
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