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Beguinas: precursoras medievais do feminismo moderno

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Foi com imensa satisfação que recebi o convite para prefaciar o livro “Beguinas, precursoras medievais do feminismo moderno” dos Professores Marcos Roberto Nunes Costa e Rafael Ferreira Costa. Senti-me honrada, pois virtualmente e pela convivência acadêmica, já “conhecia” o professor Marcos Roberto e sua grande contribuição para os Estudos Medievais no Brasil. Para além de ser pesquisador e professor, Marcos Roberto é de uma generosidade imensa! Lembro que quando fiz o Doutorado cujo objeto de estudo é Hildegarda de Bingen, li um artigo de sua autoria, em que a citava e, ao entrar em contato com ele, tive a grata surpresa de receber em poucos dias uma vasta bibliografia, que muito me ajudou em minha pesquisa. Em outra oportunidade, tive o privilégio de ver minha tese sendo citada em uma de suas obras. Assim, a emoção se aliou ao desafio de prefaciar uma obra sensível e necessária para nossos tempos. Os séculos XII e XIII podem ser considerados como os séculos dos movimentos espirituais das mulheres e é neste contexto que surgem o movimento das Beguinas, situando-se num período denso de inventividade cultural protagonizada por figuras e organizações femininas. Assim, o universo das Beguinas e sua contribuição no e para o mundo medieval carecia de uma obra em português que apresentasse essas mulheres e seu universo, preenchesse a lacuna que há em torno delas, dar-lhes o destaque que merecem e, ao mesmo tempo, trazer para o público brasileiro, que em grande parte desconhecem esses nomes, uma contribuição impar e extremamente necessária para os estudos femininos medievais. Através dessa obra, o leitor perceberá que o movimento beguinal apresenta uma versão bem diferente do estereotipo que ainda se tem da mulher medieval, como sendo submissa e que obrigatoriamente vivia sob o jugo de um homem, fosse seu pai, marido, filho ou abade de uma congregação religiosa. As beguinas se apresentam com uma originalidade excepcional, pois suas participantes eram protagonistas de um movimento de espiritualidade feminina laica, que tinham autonomia não só religiosa, mas também econômica e social, vivendo do seu próprio trabalho, sendo, portanto independentes e livres, numa Europa marcada pela presença insubmissa e contestatária de mulheres – santas, sábias, guerreiras -, cuja influência se estende para além da Idade Média. Embora alguns comentadores e autores queiram ou ousem categorizar as beguinas como protofeministas é necessário cuidado para não cometermos não só analogias, como também injustiças que poderiam eclipsar a originalidade destas mulheres, cujo legado para as gerações futuras, é inegavelmente grandioso. Creio que a palavra que poderia ser usada em relação ao movimento beguinal é ambiguidade uma vez que elas quiseram ser espirituais, sem ser religiosas; quiseram viver entre mulheres, sem ser monjas ou abadessas; quiseram rezar e trabalhar, porém fora de mosteiros; quiseram ser fiéis a si mesmas, porém sem votos; quiseram ser cristãs fora da igreja institucional e das heresias; quiseram experimentar sua materialidade corporal, mas sem ser canonizadas ou demonizadas. Para fazer possível, no seu mundo, este desejo pessoal, inventaram a forma de vida beguina, uma forma de vida refinadamente política, que supõe estar além da lei, não contra lei. Nunca pediram ao papa chancela em sua vivência e convivência, nem tampouco se rebelaram contra a Igreja. Desta forma, estimado leitor e estudioso, essa obra servirá de ponte entre o universo feminino medieval e o público brasileiro. Convido-os a atravessá-la desfrutando de um mundo cheio de cores, nuances, oportunidades e mergulhar num universo de possibilidades, de mulheres fortes, destemidas e, sobretudo corajosas e desafiadoras como foram as beguinas. Mirtes Emília Pinheiro Belo Horizonte, março de 2024
Title: Beguinas: precursoras medievais do feminismo moderno
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Foi com imensa satisfação que recebi o convite para prefaciar o livro “Beguinas, precursoras medievais do feminismo moderno” dos Professores Marcos Roberto Nunes Costa e Rafael Ferreira Costa.
Senti-me honrada, pois virtualmente e pela convivência acadêmica, já “conhecia” o professor Marcos Roberto e sua grande contribuição para os Estudos Medievais no Brasil.
Para além de ser pesquisador e professor, Marcos Roberto é de uma generosidade imensa! Lembro que quando fiz o Doutorado cujo objeto de estudo é Hildegarda de Bingen, li um artigo de sua autoria, em que a citava e, ao entrar em contato com ele, tive a grata surpresa de receber em poucos dias uma vasta bibliografia, que muito me ajudou em minha pesquisa.
Em outra oportunidade, tive o privilégio de ver minha tese sendo citada em uma de suas obras.
Assim, a emoção se aliou ao desafio de prefaciar uma obra sensível e necessária para nossos tempos.
Os séculos XII e XIII podem ser considerados como os séculos dos movimentos espirituais das mulheres e é neste contexto que surgem o movimento das Beguinas, situando-se num período denso de inventividade cultural protagonizada por figuras e organizações femininas.
Assim, o universo das Beguinas e sua contribuição no e para o mundo medieval carecia de uma obra em português que apresentasse essas mulheres e seu universo, preenchesse a lacuna que há em torno delas, dar-lhes o destaque que merecem e, ao mesmo tempo, trazer para o público brasileiro, que em grande parte desconhecem esses nomes, uma contribuição impar e extremamente necessária para os estudos femininos medievais.
Através dessa obra, o leitor perceberá que o movimento beguinal apresenta uma versão bem diferente do estereotipo que ainda se tem da mulher medieval, como sendo submissa e que obrigatoriamente vivia sob o jugo de um homem, fosse seu pai, marido, filho ou abade de uma congregação religiosa.
As beguinas se apresentam com uma originalidade excepcional, pois suas participantes eram protagonistas de um movimento de espiritualidade feminina laica, que tinham autonomia não só religiosa, mas também econômica e social, vivendo do seu próprio trabalho, sendo, portanto independentes e livres, numa Europa marcada pela presença insubmissa e contestatária de mulheres – santas, sábias, guerreiras -, cuja influência se estende para além da Idade Média.
Embora alguns comentadores e autores queiram ou ousem categorizar as beguinas como protofeministas é necessário cuidado para não cometermos não só analogias, como também injustiças que poderiam eclipsar a originalidade destas mulheres, cujo legado para as gerações futuras, é inegavelmente grandioso.
Creio que a palavra que poderia ser usada em relação ao movimento beguinal é ambiguidade uma vez que elas quiseram ser espirituais, sem ser religiosas; quiseram viver entre mulheres, sem ser monjas ou abadessas; quiseram rezar e trabalhar, porém fora de mosteiros; quiseram ser fiéis a si mesmas, porém sem votos; quiseram ser cristãs fora da igreja institucional e das heresias; quiseram experimentar sua materialidade corporal, mas sem ser canonizadas ou demonizadas.
Para fazer possível, no seu mundo, este desejo pessoal, inventaram a forma de vida beguina, uma forma de vida refinadamente política, que supõe estar além da lei, não contra lei.
Nunca pediram ao papa chancela em sua vivência e convivência, nem tampouco se rebelaram contra a Igreja.
Desta forma, estimado leitor e estudioso, essa obra servirá de ponte entre o universo feminino medieval e o público brasileiro.
Convido-os a atravessá-la desfrutando de um mundo cheio de cores, nuances, oportunidades e mergulhar num universo de possibilidades, de mulheres fortes, destemidas e, sobretudo corajosas e desafiadoras como foram as beguinas.
Mirtes Emília Pinheiro Belo Horizonte, março de 2024.

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