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Entre a publicação e a visibilidade

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A ciência aberta busca tornar o conhecimento científico totalmente acessível, um ideal que confronta-se com desafios políticos que vão além da publicação em acesso aberto. Para o alcance dos objetivos da ciência aberta, são necessários insumos teóricos e práticos que estejam plenamente alinhados a seus princípios de transparência, acessibilidade e reprodutibilidade. Nesse contexto, os sistemas de organização do conhecimento, como os vocabulários controlados, constituem componentes essenciais do ecossistema da ciência aberta, atuando como mediadores entre o que é publicado e aqueles que buscam acessar e utilizar o conhecimento científico, visando proporcionar a encontrabilidade de conteúdos através da localização de informações relevantes de forma rápida. No entanto, é necessário reconhecer que os sistemas de organização do conhecimento não são neutros e carregam consigo concepções políticas que se materializam por meio de escolhas supostamente técnicas, como a definição de termos, hierarquias e relações semânticas. Disparidades nesse ciclo de representação e divulgação da ciência podem gerar impactos significativos, pois o que não é representado não é encontrado e, portanto, é sistematicamente excluído dos mecanismos que conferem visibilidade e legitimidade ao conhecimento científico. Tomando por base essa abordagem, parece-nos importante analisar como os sistemas de organização do conhecimento podem reproduzir normas sociais e limitar a visibilidade de pesquisas científicas sobre as sexualidades dissidentes, pois mesmo que certos temas sejam publicados em acesso aberto, sua recuperação e visibilidade permanecem comprometidas, limitando o alcance da própria ciência aberta. A forma como as sexualidades dissidentes são indexadas constitui um exemplo desse fenômeno que, sob um sistema sexo-gênero, estabelece uma dualidade hierárquica onde determinadas concepções de sexualidade ganham centralidade à medida que reforçam valores reprodutivos normativos, enquanto práticas e identidades que desviam dessas normas são relegadas à marginalidade e à patologização. Nesse sentido, as sexualidades dissidentes podem ser compreendidas como desvios às normas sexuais, distanciando-se da cisgeneridade, heterossexualidade, monossexualidade e, de forma mais ampla, da orientação à reprodução. Este trabalho tem por objetivo analisar como as sexualidades dissidentes não reprodutivas, especificamente o sexo anal, são representadas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) por meio dos descritores DeCS/MeSH. Trata-se de um estudo exploratório e documental, com abordagem qualitativa. A BVS centraliza cerca de 60 bases de dados bibliográficas, entre outras fontes de informação da área de saúde, com destaque para a LILACS, principal base de dados latina e caribenha em literatura de ciências da saúde. Para a coleta de dados, aplicou-se uma busca por título utilizando os termos “‘sexo anal’ OR ‘anal sex’”, realizada em 26 de agosto de 2025. A busca recuperou 247 resultados, dos quais 153 estavam indexados com o descritor “comportamento sexual”. Isso ocorre pois esse descritor inclui “sexo anal” entre seus termos alternativos. Tal prática evidencia uma grave generalização do assunto, recorrendo a eufemismos que se distanciam do foco principal dos artigos. Destaca-se um dos documentos encontrados que ilustra de forma exemplar essas limitações, intitulado “Anal Sex Is More Common Than Having a Twitter Account in the United States”, uma publicação que não possui qualquer descritor que se relacione diretamente ao seu tema central. Para contornar essas limitações do DeCS/MeSH, foram adotadas estratégias alternativas de indexação, como a utilização do termo mais geral “sexual behavior” e a adaptação do termo anatômico específico “anal canal”. Esses achados revelam lacunas que vão além de questões técnicas, apontando também implicações políticas e epistemológicas na forma como a ciência dá, ou não, visibilidade às identidades e práticas sexuais marginalizadas. Ainda que de forma não declarada, há um mecanismo que opera através desses sistemas na manutenção de estruturas de poder que relegam a produção sobre sexualidades dissidentes ao eufemismo e a menções indiretas. Além de se constituir como um fator limitante no que tange aos princípios da ciência aberta, essa lógica reforça estruturas de poder existentes, produzindo efeitos concretos sobre as próprias comunidades implicadas. Ao tratar certas práticas sexuais como uma exceção, um desvio ou algo que não merece ser nomeado propriamente, o sistema não só dificulta sua visibilidade científica, como também contribui para a ideia de que essas experiências têm menor relevância social e acadêmica. É preciso questionar por que algumas categorias recebem desdobramentos específicos que as qualificam, enquanto outras comunidades científicas são obrigadas a adaptar as ferramentas disponíveis, muitas vezes ainda assim impactando em uma perda significativa de visibilidade.
Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Title: Entre a publicação e a visibilidade
Description:
A ciência aberta busca tornar o conhecimento científico totalmente acessível, um ideal que confronta-se com desafios políticos que vão além da publicação em acesso aberto.
Para o alcance dos objetivos da ciência aberta, são necessários insumos teóricos e práticos que estejam plenamente alinhados a seus princípios de transparência, acessibilidade e reprodutibilidade.
Nesse contexto, os sistemas de organização do conhecimento, como os vocabulários controlados, constituem componentes essenciais do ecossistema da ciência aberta, atuando como mediadores entre o que é publicado e aqueles que buscam acessar e utilizar o conhecimento científico, visando proporcionar a encontrabilidade de conteúdos através da localização de informações relevantes de forma rápida.
No entanto, é necessário reconhecer que os sistemas de organização do conhecimento não são neutros e carregam consigo concepções políticas que se materializam por meio de escolhas supostamente técnicas, como a definição de termos, hierarquias e relações semânticas.
Disparidades nesse ciclo de representação e divulgação da ciência podem gerar impactos significativos, pois o que não é representado não é encontrado e, portanto, é sistematicamente excluído dos mecanismos que conferem visibilidade e legitimidade ao conhecimento científico.
Tomando por base essa abordagem, parece-nos importante analisar como os sistemas de organização do conhecimento podem reproduzir normas sociais e limitar a visibilidade de pesquisas científicas sobre as sexualidades dissidentes, pois mesmo que certos temas sejam publicados em acesso aberto, sua recuperação e visibilidade permanecem comprometidas, limitando o alcance da própria ciência aberta.
A forma como as sexualidades dissidentes são indexadas constitui um exemplo desse fenômeno que, sob um sistema sexo-gênero, estabelece uma dualidade hierárquica onde determinadas concepções de sexualidade ganham centralidade à medida que reforçam valores reprodutivos normativos, enquanto práticas e identidades que desviam dessas normas são relegadas à marginalidade e à patologização.
Nesse sentido, as sexualidades dissidentes podem ser compreendidas como desvios às normas sexuais, distanciando-se da cisgeneridade, heterossexualidade, monossexualidade e, de forma mais ampla, da orientação à reprodução.
Este trabalho tem por objetivo analisar como as sexualidades dissidentes não reprodutivas, especificamente o sexo anal, são representadas na Biblioteca Virtual em Saúde (BVS) por meio dos descritores DeCS/MeSH.
Trata-se de um estudo exploratório e documental, com abordagem qualitativa.
A BVS centraliza cerca de 60 bases de dados bibliográficas, entre outras fontes de informação da área de saúde, com destaque para a LILACS, principal base de dados latina e caribenha em literatura de ciências da saúde.
Para a coleta de dados, aplicou-se uma busca por título utilizando os termos “‘sexo anal’ OR ‘anal sex’”, realizada em 26 de agosto de 2025.
A busca recuperou 247 resultados, dos quais 153 estavam indexados com o descritor “comportamento sexual”.
Isso ocorre pois esse descritor inclui “sexo anal” entre seus termos alternativos.
Tal prática evidencia uma grave generalização do assunto, recorrendo a eufemismos que se distanciam do foco principal dos artigos.
Destaca-se um dos documentos encontrados que ilustra de forma exemplar essas limitações, intitulado “Anal Sex Is More Common Than Having a Twitter Account in the United States”, uma publicação que não possui qualquer descritor que se relacione diretamente ao seu tema central.
Para contornar essas limitações do DeCS/MeSH, foram adotadas estratégias alternativas de indexação, como a utilização do termo mais geral “sexual behavior” e a adaptação do termo anatômico específico “anal canal”.
Esses achados revelam lacunas que vão além de questões técnicas, apontando também implicações políticas e epistemológicas na forma como a ciência dá, ou não, visibilidade às identidades e práticas sexuais marginalizadas.
Ainda que de forma não declarada, há um mecanismo que opera através desses sistemas na manutenção de estruturas de poder que relegam a produção sobre sexualidades dissidentes ao eufemismo e a menções indiretas.
Além de se constituir como um fator limitante no que tange aos princípios da ciência aberta, essa lógica reforça estruturas de poder existentes, produzindo efeitos concretos sobre as próprias comunidades implicadas.
Ao tratar certas práticas sexuais como uma exceção, um desvio ou algo que não merece ser nomeado propriamente, o sistema não só dificulta sua visibilidade científica, como também contribui para a ideia de que essas experiências têm menor relevância social e acadêmica.
É preciso questionar por que algumas categorias recebem desdobramentos específicos que as qualificam, enquanto outras comunidades científicas são obrigadas a adaptar as ferramentas disponíveis, muitas vezes ainda assim impactando em uma perda significativa de visibilidade.

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