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O conto catatônico ou a estética quadricular de Maura Lopes Cançado
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O presente trabalho problematiza a interpretação literária de narrativas ficcionais produzidas por autores diagnosticados clinicamente, ou seja, escritores que tiveram sua biografia traçada em hospitais psiquiátricos. Nesse sentido, a escritora mineira Maura Lopes Cançado acumula sobreposições narrativas: autobiográfica e ficcional – respectivamente, Hospício é Deus: diário I (1965) e O sofredor do ver (1968) – sobrepostas por uma narrativa institucional, composta por diagnósticos clínicos. Desse modo, o crítico encontra-se entre o texto estético da autora e o texto técnico das instituições psiquiátricas, arriscando utilizar a interpretação textual como análise clínica. Para tentar escapar à armadilha interpretativa, busca-se no conto “No quadrado de Joana”, presente em O sofredor do ver, uma implicação do sentido em um movimento posterior à leitura. O conto apresenta a personagem Joana, interna e integrada em uma instituição, diagnosticada com catatonia. As representações da internação e dos sintomas da catatonia integram o conteúdo do conto, no entanto, a interpretação postula uma leitura do enclausuramento e do signo catatônico na estrutura do conto, na forma. Por conseguinte, a ação, o tempo e o espaço ajustam-se não só aos sintomas da personagem, mas à composição estética do conto, principalmente à forma geométrica do quadrado, expressão do espaço institucional e do modo de existência da personagem. O movimento da interpretação, em psicanálise, que incute um sentido ao trauma em um tempo posterior chama-se Nachträglichkeit (subst.) ou nachträglich (adj. e adv.). Desse termo, aplicou-se o movimento posterior na leitura do conto de Maura, o que possibilita acrescentar à forma quadricular e ao signo da catatonia uma remodelação do sentido, propondo a relação da estética do conto com a estética da vanguarda artística do cubismo, especificamente, com a pintura Portrait of Germaine Raynal (1912), de Juan Gris.
Palavras-chave: Maura Lopes Cançado; interpretação; catatonia; estética; Nachträglichkeit.
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia/Edicoes UESB
Title: O conto catatônico ou a estética quadricular de Maura Lopes Cançado
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O presente trabalho problematiza a interpretação literária de narrativas ficcionais produzidas por autores diagnosticados clinicamente, ou seja, escritores que tiveram sua biografia traçada em hospitais psiquiátricos.
Nesse sentido, a escritora mineira Maura Lopes Cançado acumula sobreposições narrativas: autobiográfica e ficcional – respectivamente, Hospício é Deus: diário I (1965) e O sofredor do ver (1968) – sobrepostas por uma narrativa institucional, composta por diagnósticos clínicos.
Desse modo, o crítico encontra-se entre o texto estético da autora e o texto técnico das instituições psiquiátricas, arriscando utilizar a interpretação textual como análise clínica.
Para tentar escapar à armadilha interpretativa, busca-se no conto “No quadrado de Joana”, presente em O sofredor do ver, uma implicação do sentido em um movimento posterior à leitura.
O conto apresenta a personagem Joana, interna e integrada em uma instituição, diagnosticada com catatonia.
As representações da internação e dos sintomas da catatonia integram o conteúdo do conto, no entanto, a interpretação postula uma leitura do enclausuramento e do signo catatônico na estrutura do conto, na forma.
Por conseguinte, a ação, o tempo e o espaço ajustam-se não só aos sintomas da personagem, mas à composição estética do conto, principalmente à forma geométrica do quadrado, expressão do espaço institucional e do modo de existência da personagem.
O movimento da interpretação, em psicanálise, que incute um sentido ao trauma em um tempo posterior chama-se Nachträglichkeit (subst.
) ou nachträglich (adj.
e adv.
).
Desse termo, aplicou-se o movimento posterior na leitura do conto de Maura, o que possibilita acrescentar à forma quadricular e ao signo da catatonia uma remodelação do sentido, propondo a relação da estética do conto com a estética da vanguarda artística do cubismo, especificamente, com a pintura Portrait of Germaine Raynal (1912), de Juan Gris.
Palavras-chave: Maura Lopes Cançado; interpretação; catatonia; estética; Nachträglichkeit.
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