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Geografia Urbana: revisitando conceitos e temas

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De tempos em tempos, as disciplinas cientificas devem passar por revisão de seus conceitos e teorias, tendo em conta as constantes revoluções do conhecimento e as transformações do mundo social. No contexto da aceleração promovida pela Globalização contemporânea, em que as mudanças são cada vez mais intensas e vertiginosas, pôr a disciplina em atualização tem-se tornado urna tarefa fundamental para que o arcabouço teórico-conceitual tradicionalmente utilizado permaneça capaz de elucidar a realidade, e, também, para que um novo insurja, dando conta do que não poderia ser explicado antes. Não se trata ainda de rever paradigmas, mas de atualizar os instrumentos de produção do conhecimento em um campo especifico, no sentido de mantê-los vivos e pertinentes. No que diz respeito a Geografia Urbana, a necessidade de atualização é ainda mais premente, urna vez que o desenvolvimento desigual da urbanização no mundo tem sido redimensionado no atual contexto de crise económica. Os países em desenvolvimento tem-se tornado mais e mais urbanizados, localizando-se aqui muitas das maiores metrópoles mundiais. Trata-se, contudo, de urna urbanização com muitos elementos precários, marcada pela expansão de assentamentos empobrecidos, sem infraestruturas e com alta dose de injustiça espacial. O tratamento dado aos seus problemas socioespaciais tem sido, frequentemente, o da militarização e do controle sobre corpos e práticas dissidentes, o que tem sido feito mediante o recurso à vigilância e à violência. Neste contexto, como tratar da informalidade, da insegurança, das desigualdades de género ou das e lutas sociais? No mundo desenvolvido ocidental, por sua vez, as politicas de austeridade impostas como medida de contenção cia crise financeira e económica de 2007/2008, contribuíram para o aumento das desigualdades socioespaciais e para a desidratação do conjunto de garantias sociais com os quais foi possível a manutenção do estado de bem-estar social - algo que tem tido fortes implicações nas estruturas e dinâmicas socioespaciais urbanas. Neste novo contexto, como ocorrem e se transformam processos há muito estudados por geógrafos urbanos, e que são interpretados a partir do conjunto de conceitos mais tradicionais da disciplina, tais corno a urbanização, a segregação espacial, ou mesmo a gentrificação? Neste mundo Globalizado, onde os fluxos de dinheiro e informação correm o planeta livremente, sem que o mesmo ocorra com as pessoas, o que dizer sobre as fronteiras territoriais, o consumo e o turismo? Como abordar o comércio e o mundo do trabalho diante das inovações tecnológicas e do processo de “plataformização”, que se desenvolve ao mesmo tempo como resultado e pressuposto da acumulação de capital? E nessa mesma realidade, que grandes mudanças demográficas — como a tendência global para o envelhecimento populacional estão em curso, e como pensar a acessibilidade urbana e a cidadania? O que dizer diante da crise climática que ameaça quase todas as formas de vida e o balanço energético do planeta? Os estudos mais recentes nos mostram que o grau de degradação ambiental chegou a níveis preocupantes e irreversíveis. Como incorporar as preocupações ecológicas no temário geográfico? Como abordar o clima e a ambiência urbanos? E como a Geografia pode contribuir a compreensão dos riscos ambientais e, ao mesmo tempo, indicar caminhos à construção de cidades mais resilientes e saudáveis? A urgência desse esforço de revisão ganhou novos contornos depois cia crise sanitária mundial decorrente cia pandemia cia COVID-19. Ainda não estão completamente evidentes as suas implicações espaciais urbanas e que agendas de pesquisa se tornarão mais pertinentes. Contudo, sem uma atualização do alicerce teórico-conceitual, à luz do que a realidade revela, tampouco será possível entender os verdadeiros impactos da pandemia. Portanto, a atualização dos conceitos com os quais os geógrafos urbanos interpretarão todas essas mudanças é incontestável e impreterível. A coletânea “Geografia Urbana: revisitando conceitos e temas” é o resultado inicial de mais um esforço de aproximação critica às Geografias do mundo lusófono, designadamente a Portuguesa e a Brasileira, visando o diálogo entre duas escolas que, apesar da proximidade linguística e cultural, estão separadas pela barreira geográfica atlântica. Trata-se, pois, de uma interação transatlântica, que contesta e se afasta de velhas imposições coloniais e mesmo eurocêntricas (especialmente a do saber), e que, pelo contrário, tensiona as formas de opressão, reconhece a diversidade de culturas e saberes, e aponta caminhos para a cooperação cientifica. Neste âmbito, reconhece-se a especificidade das variantes de português utilizadas pelos autores/autoras, a lusa e a brasileira, tendo-se respeitado a escrita de cada um, promovendo o afastamento face a preconceitos que, com frequência, tendem a incorporar uma perspetiva colonial, valorizadora de um suposto “português original”. Em suma, esta coletânea foi concebida sob a pretensão de contribuir para a revisão de conceitos, teorias e temas na Geografia urbana. Foi inicialmente estruturada em verbetes temáticos, a partir dos quais os autores puderam desenvolver livremente suas contribuições, movendo-se das abordagens mais tradicionais atá às mais atuais, podendo ainda incorporar estudos de caso e análises mais autorais especificas. Sabemos que os textos a seguir nem de longe esgotam a variedade de conceitos e temas que os geógrafos urbanos podem mobilizar em suas atividades; contudo, este é um esforço introdutório e rico pela sua diversidade e pelo caráter de diálogo internacional que incorpora.
Centro de Estudos Geográficos, Instituto de Geografia e Ordenamento do Território, Universidade de Lisboa
Title: Geografia Urbana: revisitando conceitos e temas
Description:
De tempos em tempos, as disciplinas cientificas devem passar por revisão de seus conceitos e teorias, tendo em conta as constantes revoluções do conhecimento e as transformações do mundo social.
No contexto da aceleração promovida pela Globalização contemporânea, em que as mudanças são cada vez mais intensas e vertiginosas, pôr a disciplina em atualização tem-se tornado urna tarefa fundamental para que o arcabouço teórico-conceitual tradicionalmente utilizado permaneça capaz de elucidar a realidade, e, também, para que um novo insurja, dando conta do que não poderia ser explicado antes.
Não se trata ainda de rever paradigmas, mas de atualizar os instrumentos de produção do conhecimento em um campo especifico, no sentido de mantê-los vivos e pertinentes.
No que diz respeito a Geografia Urbana, a necessidade de atualização é ainda mais premente, urna vez que o desenvolvimento desigual da urbanização no mundo tem sido redimensionado no atual contexto de crise económica.
Os países em desenvolvimento tem-se tornado mais e mais urbanizados, localizando-se aqui muitas das maiores metrópoles mundiais.
Trata-se, contudo, de urna urbanização com muitos elementos precários, marcada pela expansão de assentamentos empobrecidos, sem infraestruturas e com alta dose de injustiça espacial.
O tratamento dado aos seus problemas socioespaciais tem sido, frequentemente, o da militarização e do controle sobre corpos e práticas dissidentes, o que tem sido feito mediante o recurso à vigilância e à violência.
Neste contexto, como tratar da informalidade, da insegurança, das desigualdades de género ou das e lutas sociais? No mundo desenvolvido ocidental, por sua vez, as politicas de austeridade impostas como medida de contenção cia crise financeira e económica de 2007/2008, contribuíram para o aumento das desigualdades socioespaciais e para a desidratação do conjunto de garantias sociais com os quais foi possível a manutenção do estado de bem-estar social - algo que tem tido fortes implicações nas estruturas e dinâmicas socioespaciais urbanas.
Neste novo contexto, como ocorrem e se transformam processos há muito estudados por geógrafos urbanos, e que são interpretados a partir do conjunto de conceitos mais tradicionais da disciplina, tais corno a urbanização, a segregação espacial, ou mesmo a gentrificação? Neste mundo Globalizado, onde os fluxos de dinheiro e informação correm o planeta livremente, sem que o mesmo ocorra com as pessoas, o que dizer sobre as fronteiras territoriais, o consumo e o turismo? Como abordar o comércio e o mundo do trabalho diante das inovações tecnológicas e do processo de “plataformização”, que se desenvolve ao mesmo tempo como resultado e pressuposto da acumulação de capital? E nessa mesma realidade, que grandes mudanças demográficas — como a tendência global para o envelhecimento populacional estão em curso, e como pensar a acessibilidade urbana e a cidadania? O que dizer diante da crise climática que ameaça quase todas as formas de vida e o balanço energético do planeta? Os estudos mais recentes nos mostram que o grau de degradação ambiental chegou a níveis preocupantes e irreversíveis.
Como incorporar as preocupações ecológicas no temário geográfico? Como abordar o clima e a ambiência urbanos? E como a Geografia pode contribuir a compreensão dos riscos ambientais e, ao mesmo tempo, indicar caminhos à construção de cidades mais resilientes e saudáveis? A urgência desse esforço de revisão ganhou novos contornos depois cia crise sanitária mundial decorrente cia pandemia cia COVID-19.
Ainda não estão completamente evidentes as suas implicações espaciais urbanas e que agendas de pesquisa se tornarão mais pertinentes.
Contudo, sem uma atualização do alicerce teórico-conceitual, à luz do que a realidade revela, tampouco será possível entender os verdadeiros impactos da pandemia.
Portanto, a atualização dos conceitos com os quais os geógrafos urbanos interpretarão todas essas mudanças é incontestável e impreterível.
A coletânea “Geografia Urbana: revisitando conceitos e temas” é o resultado inicial de mais um esforço de aproximação critica às Geografias do mundo lusófono, designadamente a Portuguesa e a Brasileira, visando o diálogo entre duas escolas que, apesar da proximidade linguística e cultural, estão separadas pela barreira geográfica atlântica.
Trata-se, pois, de uma interação transatlântica, que contesta e se afasta de velhas imposições coloniais e mesmo eurocêntricas (especialmente a do saber), e que, pelo contrário, tensiona as formas de opressão, reconhece a diversidade de culturas e saberes, e aponta caminhos para a cooperação cientifica.
Neste âmbito, reconhece-se a especificidade das variantes de português utilizadas pelos autores/autoras, a lusa e a brasileira, tendo-se respeitado a escrita de cada um, promovendo o afastamento face a preconceitos que, com frequência, tendem a incorporar uma perspetiva colonial, valorizadora de um suposto “português original”.
Em suma, esta coletânea foi concebida sob a pretensão de contribuir para a revisão de conceitos, teorias e temas na Geografia urbana.
Foi inicialmente estruturada em verbetes temáticos, a partir dos quais os autores puderam desenvolver livremente suas contribuições, movendo-se das abordagens mais tradicionais atá às mais atuais, podendo ainda incorporar estudos de caso e análises mais autorais especificas.
Sabemos que os textos a seguir nem de longe esgotam a variedade de conceitos e temas que os geógrafos urbanos podem mobilizar em suas atividades; contudo, este é um esforço introdutório e rico pela sua diversidade e pelo caráter de diálogo internacional que incorpora.

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