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PAULO FREIRE E PIERRE FURTER: ENCONTROS COM O PENSAMENTO UTÓPICO
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A reflexão sobre a educação, em nossa época, se caracteriza, consideravelmente, pela ênfase nasabordagens psicopedagógicas. Também percebe-se um fascínio com o advento das novas tecnologias,principalmente em torno da preocupação com as consequências do rápido desenvolvimento daInteligência Artificial. O espanto diante do surgimento de tantas mudanças significativas no hoje,engendra um repertório de respostas que, muitas vezes, revelam mais atitudes de adaptação àsnarrativas condicionantes do presente, num clima fatalista de aceitação do status quo, enquantoesvaziam-se as capacidades de conjecturar alternativas humanizadoras para além do agora. Ou seja,as discussões pedagógicas perderam a capacidade de sonhar, imaginar, pensar o inédito, como se estaatitude fosse inútil e desnecessária perante o repertório de narrativas condicionantes e imediatistasdesta época.Isso não significa que a atenção intelectual em torno da urgência dos variados temas queemergiram nas últimas décadas deva ser ignorada. Apenas constata-se que houve uma dispersão daatenção intelectual a respeito das questões centrais, as quais, defende-se aqui, precisam sempre serrevisitadas e rediscutidas em perspectiva com os desafios atuais, portanto, não podem jamais seresquecidas.Sobre isto, Charlot (2020) nos lembra que a pedagogia contemporânea deixou de lado umaquestão originária que sustente, sob bases sólidas, qualquer discussão no âmbito educacional. Trata-2se da pergunta: “o que é o homem?”, ou melhor, “o que é o ser humano?”. Esta ausência antropológicana problematização sobre as propostas educacionais de nosso tempo, revelam uma lacuna central,sintoma de uma crise originária, pois, sem uma sólida concepção sobre os elementos fundantes dacondição humana, não podemos prospectar as bases de sua própria formação. Neste cenário, é precisovoltar aos fundamentos, sem os quais não se pode avançar na construção de uma proposta educativagenuína, para além de qualquer reducionismo meramente tecnocrático e profissionalizante.Assim, a retomada do pensamento dos filósofos e educadores Paulo Freire [1922-1997] e PierreFurter [1931-2020] se faz muito oportuna. Ambos assumiram, sem reservas, a centralidade da utopiaem suas reflexões epistêmicas sobre educação e pedagogia. Desde seu primeiro encontro no nordestebrasileiro na década de 1960, percebe-se que exerceram influências recíprocas em suas concepçõesteórico-metodológicas sobre pedagogia, antropologia, educação e formação humana. Suas posiçõesteórico-práticas, nitidamente embasadas no pensamento utópico, foram muito influentes no campoeducacional latino-americano e ainda se apresentam muito oportunas para desafiar a imaginaçãocriadora e a criatividade inovadora dos educadores nos dias atuais, para além da atmosfera imediatistaque encerra o pensamento numa adaptação determinista aos problemas do tempo presente.Também, procuraremos compreender os aspectos e nuances de como cada um destes autores seapropria do discurso utópico, dando-lhe características peculiares, marcadas pela forma como cadaum articulava suas reflexões pedagógicas. Pierre Furter, zeloso pelo alto grau de erudição e rigoranalítico na exposição conceitual e crítico da utopia, em diálogo permanente com os pensadores datradição utópica, principalmente na interpretação minuciosa de sua principal referência, Ernst Bloch.Já, Paulo Freire, revela um caráter profético e carismático na apropriação das diretrizes fundantes dopensamento utópico sem se preocupar, necessariamente, em citar ou mencionar os autores da tradiçãoutópica, uma espécie de visionário que tem profunda clareza da viabilidade do sonho que anuncia,como se estivesse convocando seus leitores a participar com ousadia da projeção de ações inéditas,sem temer o risco de buscar viabilizá-las. Se Paulo Freire ficou conhecido como o “andarilho dautopia”, alguém que irradiava e exalava sua convicção de mudar o mundo para superar toda e qualquer3situação de desumanização, Pierre Furter pode ser considerado um “catedrático da utopia”, alguémque se dedicou sistematicamente a estudar a tradição utópica e seus respectivos pensadores, acompreender sua complexidade e a defender a necessidade de sua permanente atualização para o devirda contemporaneidade.De qualquer forma, os dois mantiveram-se profundamente sintonizados com as exigências datransformação radical da realidade no horizonte do sonho acordado, na denúncia contumaz àsestruturas desumanizantes e no anúncio permanente da educação libertadora como processo dehumanização
Pro Reitoria de Pesquisa, Pos Graduacao e Inovacao - UFF
Title: PAULO FREIRE E PIERRE FURTER: ENCONTROS COM O PENSAMENTO UTÓPICO
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A reflexão sobre a educação, em nossa época, se caracteriza, consideravelmente, pela ênfase nasabordagens psicopedagógicas.
Também percebe-se um fascínio com o advento das novas tecnologias,principalmente em torno da preocupação com as consequências do rápido desenvolvimento daInteligência Artificial.
O espanto diante do surgimento de tantas mudanças significativas no hoje,engendra um repertório de respostas que, muitas vezes, revelam mais atitudes de adaptação àsnarrativas condicionantes do presente, num clima fatalista de aceitação do status quo, enquantoesvaziam-se as capacidades de conjecturar alternativas humanizadoras para além do agora.
Ou seja,as discussões pedagógicas perderam a capacidade de sonhar, imaginar, pensar o inédito, como se estaatitude fosse inútil e desnecessária perante o repertório de narrativas condicionantes e imediatistasdesta época.
Isso não significa que a atenção intelectual em torno da urgência dos variados temas queemergiram nas últimas décadas deva ser ignorada.
Apenas constata-se que houve uma dispersão daatenção intelectual a respeito das questões centrais, as quais, defende-se aqui, precisam sempre serrevisitadas e rediscutidas em perspectiva com os desafios atuais, portanto, não podem jamais seresquecidas.
Sobre isto, Charlot (2020) nos lembra que a pedagogia contemporânea deixou de lado umaquestão originária que sustente, sob bases sólidas, qualquer discussão no âmbito educacional.
Trata-2se da pergunta: “o que é o homem?”, ou melhor, “o que é o ser humano?”.
Esta ausência antropológicana problematização sobre as propostas educacionais de nosso tempo, revelam uma lacuna central,sintoma de uma crise originária, pois, sem uma sólida concepção sobre os elementos fundantes dacondição humana, não podemos prospectar as bases de sua própria formação.
Neste cenário, é precisovoltar aos fundamentos, sem os quais não se pode avançar na construção de uma proposta educativagenuína, para além de qualquer reducionismo meramente tecnocrático e profissionalizante.
Assim, a retomada do pensamento dos filósofos e educadores Paulo Freire [1922-1997] e PierreFurter [1931-2020] se faz muito oportuna.
Ambos assumiram, sem reservas, a centralidade da utopiaem suas reflexões epistêmicas sobre educação e pedagogia.
Desde seu primeiro encontro no nordestebrasileiro na década de 1960, percebe-se que exerceram influências recíprocas em suas concepçõesteórico-metodológicas sobre pedagogia, antropologia, educação e formação humana.
Suas posiçõesteórico-práticas, nitidamente embasadas no pensamento utópico, foram muito influentes no campoeducacional latino-americano e ainda se apresentam muito oportunas para desafiar a imaginaçãocriadora e a criatividade inovadora dos educadores nos dias atuais, para além da atmosfera imediatistaque encerra o pensamento numa adaptação determinista aos problemas do tempo presente.
Também, procuraremos compreender os aspectos e nuances de como cada um destes autores seapropria do discurso utópico, dando-lhe características peculiares, marcadas pela forma como cadaum articulava suas reflexões pedagógicas.
Pierre Furter, zeloso pelo alto grau de erudição e rigoranalítico na exposição conceitual e crítico da utopia, em diálogo permanente com os pensadores datradição utópica, principalmente na interpretação minuciosa de sua principal referência, Ernst Bloch.
Já, Paulo Freire, revela um caráter profético e carismático na apropriação das diretrizes fundantes dopensamento utópico sem se preocupar, necessariamente, em citar ou mencionar os autores da tradiçãoutópica, uma espécie de visionário que tem profunda clareza da viabilidade do sonho que anuncia,como se estivesse convocando seus leitores a participar com ousadia da projeção de ações inéditas,sem temer o risco de buscar viabilizá-las.
Se Paulo Freire ficou conhecido como o “andarilho dautopia”, alguém que irradiava e exalava sua convicção de mudar o mundo para superar toda e qualquer3situação de desumanização, Pierre Furter pode ser considerado um “catedrático da utopia”, alguémque se dedicou sistematicamente a estudar a tradição utópica e seus respectivos pensadores, acompreender sua complexidade e a defender a necessidade de sua permanente atualização para o devirda contemporaneidade.
De qualquer forma, os dois mantiveram-se profundamente sintonizados com as exigências datransformação radical da realidade no horizonte do sonho acordado, na denúncia contumaz àsestruturas desumanizantes e no anúncio permanente da educação libertadora como processo dehumanização.
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